Boin - Capítulo 028



O dia começou radiante. Desde o seu despertar às 5h da manhã, passando banho, os cuidados com os cabelos, a aplicação de cremes hidratantes específicos para cada parte do corpo, as fragrâncias tão perfumadas e as roupas tão cuidadosamente escolhidas. Havia um êxtase em seu peito.
“Acalme-se! Acalme-se!”
Dizia para si enquanto pegava a chave do carro.
Naquele dia a padaria parecia estar mais impecável do que nunca. O pão com manteiga estava maravilhoso. O café preto, divino. Tudo extremamente delicioso.
O trânsito. Ah! O trânsito. Simplesmente não havia. Assim, viu ruas largas de um asfalto perfeito, com meios-fios regulares, acompanhado por calçadas e gramas, intercalando com praças e estabelecimentos que ela percebia só agora.
Olhou para o relógio no painel do veículo:
“6h30. Vou chegar com folga.”

Boin - Capítulo 027



A garota, uma negra e de belas curvas, de cabelo preto e cacheado, dançava sensualmente sobre a mesa de centro. Por si mesma, ela já se extrovertia e se soltava durante a dança. Ao redor da moça, cinco homens bem vestidos, acompanhavam a performance, sentados em sofás.
Posicionadas em outro ponto do recinto, invisíveis aos olhos dos presentes, as entidades observavam a sequência. Então uma perguntou:
— Ela não deveria fica assim apenas depois que eu entrasse e a possuísse?
Quem a trouxe não respondeu mas, após presenciar tantas pessoas naquela atividade, tinha seu próprio pensamento a respeito:
“Será que essa daí precisa de alguma ajuda externa?”

Boin - Capítulo 026



A conversa teve início no meio do expediente mesmo, quando estavam parados abastecendo a viatura. Moma foi direto:
— Quantas vezes eu me intrometo nos seus procedimentos? Quantas vezes eu te interrompo ou questiono o que está fazendo?
— Olha Moma, eu sei qu…
— Não! Não sabe! Se soubesse não faria o que faz. O seu trabalho tem alto nível de estresse. Mas o meu trabalho também tem uma auto nível de estresse. Um erro seu e uma vida está em risco. Um erro meu e três vidas estão em risco.
— Moma! — Ela falou mais alto — Não estou bem. Principalmente nesses últimos dias, e…
— Espere! Espere! — Ele falou mais alto ainda — O que um paciente que está morrendo tem com isso? Você quer que um moribundo te diga algo tranquilizante? De acalentador?

Boin - Capítulo 025



Estava cansada.
“Fora de ritmo.”
Não tinha certeza, agora que entrava no terceiro dia. Mesmo assim o seu contentamento era visível. Lavava, limpava, secava, organizava. Diana já fazia de tudo um pouco como contratada da lanchonete.
O estabelecimento era frequentado por um público mais idoso, talvez por causa da especialidade culinária: caldos e sopas. Ou talvez por causa de dona Clarice, a proprietária. Mulher de certa candura, mas firme em suas ordens. Descendente de escoceses que, numa visita ao novo continente, se entusiasmaram com o lugar e decidiram ficar. Ela aprendeu as receitas com a mãe, mas foi a avó que lhe passou os “truques”. Talvez esse sim, fosse o motivo de terem três unidades e estarem planejando a ampliação da rede de restaurantes Dona Vó.
O trabalho seguia quando alguém derramou uma tigela de sopa em uma das mesas. Rápida, Diana correu até lá, limpou e secou mesa e chão, e acalmou a cliente, uma senhora que lhe pedia mil desculpas:
— Não precisa se preocupar. A garçonete já lhe trará outra porção.
— Obrigada, minha filha!

Boin - Capítulo 024



As vistas estavam embaralhadas, parecia ter areia em seus olhos. Os músculos doíam, e as articulações também. Cada passo dado era com um sacrifício hercúleo como se, assim como Atlas, carregasse o mundo nas costas. Na boca um gosto estranho de quem varou a noite acordado. Foi com dificuldade que conseguiu acertar o buraco da fechadura e girar a chave abrindo a porta. Trancar nem se fala. Desatou tudo o que podia de roupa e equipamentos, deixando cair no chão da sala e, num último mover de suas combalidas energias, correu para o quarto, desabando na cama. A maciez, o cheiro adocicado, a sensação de acolhimento. Pedro apagou quase sem sentidos. Eram 5 horas da madrugada. Quatro horas depois o telefone toca insistentemente: uma sequência, duas sequências, três sequências… oito sequências e, moído ele levantou:
— Alô! — Balbuciou sonolento.
— Está atrasado para o trabalho.

Boin - Capítulo 023



“— Senhora Manoela. Já estamos em posição, seguindo o seu esposo.”
“— Está filmando tudo?”
“— Positivo.” — Alvarenga gostava desses jargões — “Conforme o acordado.”
“— Tudo bem.” — Manoela estava apreensiva.
“— Ele está descendo do carro e escolhendo uma na calçada mesmo. Ihhh!”
“— O que foi detetive? O que está acontecendo?”
“— Seu marido não está escolhendo uma prostituta. É um travesti.”
“— Ah! Não!” — O universo de Manoela, desabou.
“— Ah! Sim! E eles entraram num beco lateral. Peraí que vou mudar de ângulo para pegar a imagem melhor.”
“— Acho que já é suficiente, senhor Alvarenga.”
“— Relaxa! Deixa só eu regular o zoom da câmera. Esse equipamento é excelente! — Ajustava o foco, quando gritou: — Minha nossa!”
“— O que foi? O que foi?”

Ehso - Capítulo 024



Marcos faltara mais uma vez. Não era algo que o irritasse. Até via um lado positivo nisso, pois agregava conhecimento e responsabilidades, sem contar que olhares atentos davam conta de seu desempenho com as próprias tarefas e com as tarefas do colega.
“Nada mal.” — Pensou Nogueira.
A manhã de sábado transcorreu normalmente na RatstaR. Um ou outro processo que demandou mais de sua atenção e, nos demais, nada que lhe assombrasse. Pode até calcular com calma o que faria no período da tarde:
“Passo na rua da informática, para comprar o mouse e almoço por lá mesmo.”
Com o relógio apontando 12 horas, desligou os equipamentos, organizou sua pasta, trancou as gavetas e saiu. Colocou o crachá no scanner e a porta destrancou. Caminhou na direção dos elevadores, mas passou pela porta que dava acesso às escadarias.
“São só 2 andares.”

Boin - Capítulo 028

O dia começou radiante. Desde o seu despertar às 5h da manhã, passando banho, os cuidados com os cabelos, a aplicação de cremes hidrata...