“Apelar
para a informalidade”,
Era
o pensamento de Marcus assim que desligou o telefone. Ele não conseguiu, de
forma alguma, fazer com que Persie fosse até a Lemaw, mas o presidente da
Dezinea concordou em recebê-los no hotel.
Então,
às 9h da manhã de domingo, Bruna, Júlio e Nelson chegavam à recepção do Le Gran, o melhor hotel da cidade.
Após
a identificação, o recepcionista avisou:
— O
senhor Persie os aguarda entre as áreas da piscina e do restaurante.
—
Obrigada!
Os três, formalmente vestidos, foram direcionados para a parte de trás da imensa construção. Ali se depararam com uma grande área onde as piscinas se fundiam com todos os demais espaços: restaurante, dancing, academia.
Foi
de uma das mesas que Persie acenou para os três. Ao se aproximarem, viram que o
senhor trajava short e camisa brancos, tênis azul e chapéu.
—
Olá! Bom dia! — saudou os recém-chegados usando de seu inglês bem polido.
—
Bom dia! — responderam. Bruna lhe estendeu a mão.
—
Uau! Desde quando a Lemaw contrata modelos para fazerem negociações? —
gracejou. — Onde eu assino para vender?
Todos
riram, mas Bruna ficou sem graça, Persie percebeu.
—
Perdoe as piadas de um velho tolo. — E a fitou sério nos olhos. — Se você foi a
enviada para tratar de algo tão importante, devo presumir que não foi apenas
pela beleza.
—
Obrigada por nos receber. — Ela evitou delongar o assunto.
—
Ah! O seu chefe conversa muito bem e sabe ser persuasivo. — E sorriu. — Mas,
por favor, sentem-se. Gostariam de comer algo? Ainda há tempo para o dejejum.
—
Não, obrigada. — Bruna começava a não gostar da situação.
Sob
os olhares atentos de Júlio e Nelson, a bela garota se aproximou, trajando
biquíni sobreposto por um vestido semitransparente e abraçando Persie por trás.
—
Bom dia! — desejou a todos.
Seu
inglês tinha um pouco de sotaque.
—
Bom dia!
E o
senhor a questionou:
—
Dormiu bem?
—
Mais ou menos. É o fuso-horário.
—
Verdade. — E mudou de assunto: — Onde estão os meus modos? Deixe-me
apresentá-los. Heidi, essa é a equipe de negociação da Lemaw. Vieram para
conversarmos. A líder da comitiva é a senhorita Bruna.
E
Heidi lhe estendeu a mão:
—
Olá!
—
Olá! — Cumprimentaram todos.
Mas
Bruna olhou-a de cima a baixo, confirmando a beleza e condenando Persie.
“Velho
safado! Deve contratar essas acompanhantes para se satisfazer durante as
viagens. Meu Deus! Ela é uma criança perto dele.”
—
Linda, pode providenciar algo para comermos?
— É
claro. — E os deixou.
—
Senhora, Bruna…
—
Senhorita — corrigiu-o.
—
Claro! Me desculpe! Senhorita, Bruna. Devo alertá-la de que aguardo convidados
e que estes se juntarão a nós em breve.
—
Tudo bem, senhor Persie.
—
Que bom.
Mas
ela tinha um objetivo:
“Só
saio daqui com a sua assinatura no contrato de venda, velhote.”
E a
conversa começou. Bruna não estava na sua melhor forma, mas foi efusiva e
pontual. Iniciou elogiando a história e a tradição da Dezinea e foi descendo
até chegar aos problemas que foram longamente explorados pela mídia e renderam
vários processos. Ela falou também sobre a falta de confiança dos investidores,
diante dos problemas angariados pela empresa. Ele se defendeu:
—
Tudo é uma questão de tempo, senhorita Bruna. Trabalho e tempo.
Com
30 minutos de negociação, Heidi chegou acompanhada por garçons.
—
Café da manhã — anunciou.
—
Espere. Não é melhor concluirmos a negociação?
— Já
tomou café frio, senhorita Bruna? É horrível! — E ofereceu aos rapazes: —
Servidos, cavalheiros!?
Heidi
se sentou ao lado de Persie e os garçons serviram todos, exceto Bruna, que
pretendia terminar o quanto antes aquela conversa.
“Droga!
Essa vagabunda tinha que aparecer agora?”
E se
aquela situação, somada ao fato de trabalhar no domingo, já era ruim, ficou bem
pior quando ela ouviu o barulho do ronco de um motor. Alguém pisava no
acelerador e o soltava, parecendo o rugido de uma fera demarcando o seu
território. Um mensageiro se aproximou e cochichou algo no ouvido de Persie.
—
Chegaram! — alegrou-se o presidente da Dezinea. — Por favor, me acompanhe,
Bruna.
Júlio
e Nelson continuaram o lanche e, sozinhos, fizeram uma breve análise da
situação.
—
Não sei. Persie não dá sinais de insegurança, medo ou preocupação. Acho que
essa ela não leva.
—
Também não estou com boa impressão sobre isso, e nem quero pensar numa conversa
com o Marcus justificando a escapada.
— Júlio comeu uma torrada.
Bruna
seguiu o senhor até chegarem ao estacionamento interno do Le Gran. Ali, os seus
temores tomaram a forma de um veículo esverdeado, com partes que se destacavam
em um cinza-claro, mas opaco, porém nada que se comparasse ao reluzente blower cromado, sobre o capô.
Do
banco do carona da caminhonete desceu um rapaz.
—
Persie!
—
Edwin!
Ambos
se cumprimentaram com a intimidade de vários anos.
—
Quanto tempo! — Persie sentia uma euforia e apontou: — E esse o rapaz?
— É
ele.
O
moço permanecia parado próximo ao veículo. Persie caminhou calmamente em sua
direção, esquadrinhando-o.
—
Então é você?! — perguntou sorrindo e apertando sua mão.
—
Sim, meu nome é Rainen, senhor presidente.
—
Oh, por favor! Me chame de Persie. — Ele parou a admirá-lo. — Eu estava ansioso
em conhecê-lo.
Ao
lado, Bruna acompanhava o diálogo, admirada com as palavras de ambos. Edwin e
Heidi também observavam.
—
Então você é o prodígio que foi contratado pelo Edwin?!
—
Não sou tudo isso, sen… Persie — se corrigiu —, apenas gosto do que faço.
—
Essa é uma característica dos gênios. Eles amam o que fazem. — Ele riu. — Mas me
diga… o que me trouxe?
Rainen
enfiou os dedos por entre a grade frontal do veículo, procurando uma paleta.
Assim que a pressionou o capô do veículo quicou abrindo para as laterais. Ali
dentro, as peças ainda reluziam a limpeza do laboratório.
—
São 486 cavalos de força.
— A
quantas rotações?
— A
6.000 RPM.
—
Interessante. E o que mais?
—
Novo sistema distribuição de óleo e correção no sistema de resfriamento do
motor.
— E
quais seriam as vantagens com isso?
—
Redução de 15% no consumo de combustível, maior eficiência energética, ganho de
37% de potência, eliminação de gargalos da motorização, menor desgaste das
peças e, com isso, menos tempo de oficina e custo mais baixo de manutenção.
As
palavras foram como chicotadas nas costas de Bruna, ao mesmo tempo em que
representavam um alívio para Persie. Mas ela ainda tentou:
—
Senhor Persie, podemos terminar nossa conversa?
Porém
ele estava encantado pelos detalhes da máquina diante de si.
—
Meu Deus! Onde está minha educação? Rainen, Edwin, essa é a senhorita Bruna, da
Lemaw Incorporações. Jovem extraordinária.
— Eu
a conheço, senhor. — Rainen a olhou sério. — Sei muito bem o grau de
comprometimento e profissionalismo que ela possui.
Persie
percebeu que havia algo que desconhecia, mas não se incomodou e virou-se para
ela.
—
Senhorita Bruna, eu gostaria de conversar, mas agora outros assuntos demandam
minha atenção. Então eu peço que deixe o seu telefone com a Heidi e, assim que
puder, entrarei em contato.
Derrotada,
e sem ter opção, acatou:
—
Sim, senhor…
— Heidi!
— Ela estava perto de Edwin. — Vou seguir com o rapaz aqui. Vá ao quarto e
pegue meus documentos e minha carteira. Nos encontramos na Dezinea, tudo bem?
Ela
assentiu com a cabeça.
Tudo o que Bruna e o seu grupo viram da recepção foi Persie entrando na caminhonete e passando pela frente do hotel.
O seu final de semana foi trágico.

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