Ardes - Capítulo 160

 


“Apelar para a informalidade”,

Era o pensamento de Marcus assim que desligou o telefone. Ele não conseguiu, de forma alguma, fazer com que Persie fosse até a Lemaw, mas o presidente da Dezinea concordou em recebê-los no hotel.

Então, às 9h da manhã de domingo, Bruna, Júlio e Nelson chegavam à recepção do Le Gran, o melhor hotel da cidade.

Após a identificação, o recepcionista avisou:

— O senhor Persie os aguarda entre as áreas da piscina e do restaurante.

— Obrigada!

Os três, formalmente vestidos, foram direcionados para a parte de trás da imensa construção. Ali se depararam com uma grande área onde as piscinas se fundiam com todos os demais espaços: restaurante, dancing, academia.

Foi de uma das mesas que Persie acenou para os três. Ao se aproximarem, viram que o senhor trajava short e camisa brancos, tênis azul e chapéu.

— Olá! Bom dia! — saudou os recém-chegados usando de seu inglês bem polido.

— Bom dia! — responderam. Bruna lhe estendeu a mão.

— Uau! Desde quando a Lemaw contrata modelos para fazerem negociações? — gracejou. — Onde eu assino para vender?

Todos riram, mas Bruna ficou sem graça, Persie percebeu.

— Perdoe as piadas de um velho tolo. — E a fitou sério nos olhos. — Se você foi a enviada para tratar de algo tão importante, devo presumir que não foi apenas pela beleza.

— Obrigada por nos receber. — Ela evitou delongar o assunto.

— Ah! O seu chefe conversa muito bem e sabe ser persuasivo. — E sorriu. — Mas, por favor, sentem-se. Gostariam de comer algo? Ainda há tempo para o dejejum.

— Não, obrigada. — Bruna começava a não gostar da situação.

Sob os olhares atentos de Júlio e Nelson, a bela garota se aproximou, trajando biquíni sobreposto por um vestido semitransparente e abraçando Persie por trás.

— Bom dia! — desejou a todos.

Seu inglês tinha um pouco de sotaque.

— Bom dia!

E o senhor a questionou:

— Dormiu bem?

— Mais ou menos. É o fuso-horário.

— Verdade. — E mudou de assunto: — Onde estão os meus modos? Deixe-me apresentá-los. Heidi, essa é a equipe de negociação da Lemaw. Vieram para conversarmos. A líder da comitiva é a senhorita Bruna.

E Heidi lhe estendeu a mão:

— Olá!

— Olá! — Cumprimentaram todos.

Mas Bruna olhou-a de cima a baixo, confirmando a beleza e condenando Persie.

“Velho safado! Deve contratar essas acompanhantes para se satisfazer durante as viagens. Meu Deus! Ela é uma criança perto dele.”

— Linda, pode providenciar algo para comermos?

— É claro. — E os deixou.

— Senhora, Bruna…

— Senhorita — corrigiu-o.

— Claro! Me desculpe! Senhorita, Bruna. Devo alertá-la de que aguardo convidados e que estes se juntarão a nós em breve.

— Tudo bem, senhor Persie.

— Que bom.

Mas ela tinha um objetivo:

“Só saio daqui com a sua assinatura no contrato de venda, velhote.”

E a conversa começou. Bruna não estava na sua melhor forma, mas foi efusiva e pontual. Iniciou elogiando a história e a tradição da Dezinea e foi descendo até chegar aos problemas que foram longamente explorados pela mídia e renderam vários processos. Ela falou também sobre a falta de confiança dos investidores, diante dos problemas angariados pela empresa. Ele se defendeu:

— Tudo é uma questão de tempo, senhorita Bruna. Trabalho e tempo.

Com 30 minutos de negociação, Heidi chegou acompanhada por garçons.

— Café da manhã — anunciou.

— Espere. Não é melhor concluirmos a negociação?

— Já tomou café frio, senhorita Bruna? É horrível! — E ofereceu aos rapazes: — Servidos, cavalheiros!?

Heidi se sentou ao lado de Persie e os garçons serviram todos, exceto Bruna, que pretendia terminar o quanto antes aquela conversa.

“Droga! Essa vagabunda tinha que aparecer agora?”

E se aquela situação, somada ao fato de trabalhar no domingo, já era ruim, ficou bem pior quando ela ouviu o barulho do ronco de um motor. Alguém pisava no acelerador e o soltava, parecendo o rugido de uma fera demarcando o seu território. Um mensageiro se aproximou e cochichou algo no ouvido de Persie.

— Chegaram! — alegrou-se o presidente da Dezinea. — Por favor, me acompanhe, Bruna.

Júlio e Nelson continuaram o lanche e, sozinhos, fizeram uma breve análise da situação.

— Não sei. Persie não dá sinais de insegurança, medo ou preocupação. Acho que essa ela não leva.

— Também não estou com boa impressão sobre isso, e nem quero pensar numa conversa com o Marcus justificando a escapada. — Júlio comeu uma torrada.

Bruna seguiu o senhor até chegarem ao estacionamento interno do Le Gran. Ali, os seus temores tomaram a forma de um veículo esverdeado, com partes que se destacavam em um cinza-claro, mas opaco, porém nada que se comparasse ao reluzente blower cromado, sobre o capô.

Do banco do carona da caminhonete desceu um rapaz.

— Persie!

— Edwin!

Ambos se cumprimentaram com a intimidade de vários anos.

— Quanto tempo! — Persie sentia uma euforia e apontou: — E esse o rapaz?

— É ele.

O moço permanecia parado próximo ao veículo. Persie caminhou calmamente em sua direção, esquadrinhando-o.

— Então é você?! — perguntou sorrindo e apertando sua mão.

— Sim, meu nome é Rainen, senhor presidente.

— Oh, por favor! Me chame de Persie. — Ele parou a admirá-lo. — Eu estava ansioso em conhecê-lo.

Ao lado, Bruna acompanhava o diálogo, admirada com as palavras de ambos. Edwin e Heidi também observavam.

— Então você é o prodígio que foi contratado pelo Edwin?!

— Não sou tudo isso, sen… Persie — se corrigiu —, apenas gosto do que faço.

— Essa é uma característica dos gênios. Eles amam o que fazem. — Ele riu. — Mas me diga… o que me trouxe?

Rainen enfiou os dedos por entre a grade frontal do veículo, procurando uma paleta. Assim que a pressionou o capô do veículo quicou abrindo para as laterais. Ali dentro, as peças ainda reluziam a limpeza do laboratório.

— São 486 cavalos de força.

— A quantas rotações?

— A 6.000 RPM.

— Interessante. E o que mais?

— Novo sistema distribuição de óleo e correção no sistema de resfriamento do motor.

— E quais seriam as vantagens com isso?

— Redução de 15% no consumo de combustível, maior eficiência energética, ganho de 37% de potência, eliminação de gargalos da motorização, menor desgaste das peças e, com isso, menos tempo de oficina e custo mais baixo de manutenção.

As palavras foram como chicotadas nas costas de Bruna, ao mesmo tempo em que representavam um alívio para Persie. Mas ela ainda tentou:

— Senhor Persie, podemos terminar nossa conversa?

Porém ele estava encantado pelos detalhes da máquina diante de si.

— Meu Deus! Onde está minha educação? Rainen, Edwin, essa é a senhorita Bruna, da Lemaw Incorporações. Jovem extraordinária.

— Eu a conheço, senhor. — Rainen a olhou sério. — Sei muito bem o grau de comprometimento e profissionalismo que ela possui.

Persie percebeu que havia algo que desconhecia, mas não se incomodou e virou-se para ela.

— Senhorita Bruna, eu gostaria de conversar, mas agora outros assuntos demandam minha atenção. Então eu peço que deixe o seu telefone com a Heidi e, assim que puder, entrarei em contato.

Derrotada, e sem ter opção, acatou:

— Sim, senhor…

— Heidi! — Ela estava perto de Edwin. — Vou seguir com o rapaz aqui. Vá ao quarto e pegue meus documentos e minha carteira. Nos encontramos na Dezinea, tudo bem?

Ela assentiu com a cabeça.

Tudo o que Bruna e o seu grupo viram da recepção foi Persie entrando na caminhonete e passando pela frente do hotel.

O seu final de semana foi trágico.

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