Astor
quase não acreditou quando atendeu à porta e ali viu três pessoas: dois homens
e Margareth. Por isso ficou momentaneamente sem reação.
—
Astor?!
—
Sim?
—
Feliz Natal?!
—
Oh, sim. Claro. Feliz Natal!
E se
calou ainda impressionado com a situação.
—
Estes são: meu pai, Dizeporeto, e meu irmão, Tomas.
—
Muito prazer, sou Astor.
Ainda
assim, permaneceu estático.
—
Astor?
—
Sim?
—
Podemos entrar?
— Claro! Claro! Me desculpem. Eu não sei onde estava com a cabeça. Entrem! Entrem!
—
Graças a Deus! Pensei que cearíamos sentados na calçada — comentou um pouco
sério o irmão de Margareth.
A
garota abraçou Astor e cochichou em seu ouvido:
—
Chegaram de última hora lá em casa. Não tinha como deixá-los lá. Tudo bem pra
você?
—
Sem problema. — E deu-lhe um beijinho. — Vamos lá para os fundos, pois na casa
não cabe tanta gente.
Tomas,
naquele primeiro contato, não teve uma boa impressão sobre Astor, talvez pelo
travamento do rapaz, talvez pela demora da entrada. Mas teve o seu pensamento
desviado à medida que caminhavam dentro da casa. A presença de objetos rústicos
enfeitando paredes e colunas chamou-lhe a atenção. Eram móveis em couro cru,
mesas em toras de madeira e com pouco acabamento, espadas, escudos e machados
com sinais de uso severo, além de alguns capacetes.
O
rapaz tocou o braço do pai, chamando sua atenção para tais coisas, e o mesmo se
limitou a acenar com a cabeça, dando a entender que vira tudo e que não se
preocupasse. Porém ficou mais temeroso quando passaram em frente à sala
principal e ele viu a cabeça de um javali empalhada e pendurada na parede, como
troféu, cercada por duas grandes lanças.
Enquanto
caminhavam, Margareth teve uma dúvida.
—
Astor, o que quer dizer com tanta…
Margareth,
seu pai e irmão ficarem calados diante do que viam: crianças, muitas crianças, correndo de um lado
para o outro; pais com bebês de colo; uma pequena banda familiar tocando
músicas animadas; num canto, havia pilhas e mais pilhas de comidas, para todos
os paladares, e no outro lado, engradados e garrafões de bebidas diversas. Era
uma enorme bagunça, mas tudo num clima bem familiar e agradável.
— …
gente?! — ela completou a frase.
—
Acho que esqueci de mencionar que meu pai tem 8 irmãos. — Ele sorriu nervoso. —
O que me dá mais ou menos 37 primos de primeiro grau, mais ou menos 70 de
segundo grau, e por aí vai…
E
foi um dos primos que gritou do meio do pessoal:
—
Chegou a namorada do Astor!
Por
um instante, o silêncio imperou com todos olhando na direção dos
recém-chegados, que permaneciam parados na porta. No momento seguinte, o ar foi
invadido por gritos e brados de ânimo, de força, de amor. “Mais um casamento!”, “Mais
crianças! Mais crianças!”, “Viva,
Teodoro! Viva, Lucrécia!”, “Parabéns
aos pombinhos!” foram algumas das coisas que se ouviu durante dois ou três
minutos. Astor ficou um pouco desconcertado, mas o efeito em Margareth foi
diferente. Ela o abraçou e olhou em seus olhos, dizendo:
— Te
amo! — E o beijou.
Foi
como jogar lenha na fogueira, e novamente a plateia repetiu os votos e
felicitações, mas cessaram quando Teodoro e Lucrécia, pai e mãe do rapaz, se
aproximaram do pequeno grupo. Margareth se recompôs e eles conversaram:
—
Seja bem-vinda à nossa casa — saudou Teodoro.
—
Desculpe se os assustamos — Lucrécia sabia bem o que aquilo causava em pessoas
que desconheciam as tradições de sua família. — O pessoal aqui é muito animado.
—
Não se preocupe. É compreensível — atenuou o pai da moça, que se apresentou: —
Sou Dizeporeto e este é meu filho Tomas.
E
após cumprimentá-los, os anfitriões se voltaram para a moça.
— E
você?
—
Sou a Margareth.
Ambos
a observaram por instantes, até que a abraçaram.
—
Seja bem-vinda à família — disse Teodoro.
—
Mas como é belle — Lucrécia deixou
escapar o seu sotaque.
—
Deu sorte com a nora, Lucrécia!
Gritou
alguém pelas costas da anfitriã. Margareth riu.
—
Venham, sentem-se conosco.
E os
levaram para a sua mesa. Assim que se sentaram, um rapaz chegou e os serviu.
Colocou diante deles pratos de ferro que carregavam grandes pedaços de uma
carne um pouco amarelada, acompanhada por batatas douradas e um denso molho de
ervas.
—
Hummm… que cheiro maravilhoso! — Margareth inspirava o ar com mais vontade.
—
Receita de família. — Lucrécia piscou para ela.
Ao
olhar para o lado, a garota viu que o pai e o irmão se fartavam com a iguaria,
tendo começado sem qualquer cerimônia.
—
Está divino, senhora Lucrécia e senhor Teodoro.
— O
sabor é melhor realçado com um bom vinho.
E
assim que Teodoro falou, uma moça veio com grandes canecas, com mais de meio
litro, e os serviu.
Tomas
bebeu quase metade de sua caneca em dois ou três goles, enquanto sua irmã comia
as batatas com o molho.
—
Sei lá, me sinto meio bárbara ao comer essas coisas dessa forma.
—
Não se preocupe, é compreensível. Tem ligação com as tradições da família.
E
Dizeporeto não segurou a curiosidade:
— De
onde são?
— A
família descende de tribos que habitavam a antiga Gália, hoje França.
—
Está me falando que são gauleses?
—
Sim! Da Gália Comata.
—
Uau! Nunca pensei que viveria para conhecer pessoas daquela região. —
Dizeporeto estava realmente admirado.
—
Suas palavras nos enobrecem.
— É
uma honra estar ao lado de tão valorosas pessoas — complementou Dizeporeto.
—
Isso merece um brinde — disse uma voz em algum lugar da festa.
—
Vamos brindar!
Lucrécia
disse, erguendo a caneca, e todos fizeram o mesmo.
—
Pela família! — bradou Teodoro, todos repetiram: — Pela família!
—
Pela amizade! — bradou Lucrécia, todos repetiram: — Pela amizade!
—
Pelo amor! — a voz um pouco tímida veio de Margareth e foi seguida pelo coro: —
Pelo amor!
Mais
urros e brados vibrantes. “Essa vai
honrar a família!”, “Com aquele
cabelo, bem que desconfiei que era gaulesa.”, “Astor foi abençoado pelos deuses!”, “Essa não nega o sangue gaulês!”, “Rápido! Alguém arrume um druida para celebrar o casamento!” foram
outras das frases ouvidas por todos na festa.
—
Nós é que nos sentimos honrados com a presença de pessoas tão decentes. —
Teodoro fez uma curta reverência. — Diante disso, gostaria de fazer um convite.
—
Somos todo ouvidos.
— Em
breve acontecerá a celebração das bodas de ouro de tio Taíde e da tia Inês.
Virão familiares, inclusive de outros continentes. Independentemente do que
aconteça… — E olhou para o jovem casal. — Gostaria de convidá-los para a festa.
—
Mas é claro que aceitamos o convite. Apenas avise-nos da data.
—
Tudo bem.
Naquele
momento, pela porta da cozinha, entraram Deny, Leny e Tony. Então uma voz disse
alto:
— O
que esses carcamanos[1]
fazem aqui?
E
risadas estouram por todos os lados. Quando se aquietaram, Tony falou:
—
Respeitem o lado italiano da família.
—
Conte-nos uma história e será respeitado! — alguém disse no meio da multidão.
—
Vocês se acalmam com facilidade, e isto me agrada. — E em seguida Tony narrou:
— É a história de um ancestral distante que foi capturado por romanos, mas
conseguiu escapar, graças à ajuda de duas pessoas.
—
Como se chamava o seu ancestral? — perguntou alguém.
— Duonapartix, se não me engano. Agora não
me interrompam ou não consigo terminar de contar. — E Tony pigarreou. — Não me
recordo os nomes daqueles que o ajudaram, mas um era grande e gordo, dado a
comilanças, e o outro era pequeno e de raciocínio rápido. Eles andavam com um
pequeno cachorro…
—
Isso o que ele fala é verdade? — questionou a Margareth.
— Completamente
— afirmou Astor. — Ele sempre conta histórias, e todos adoram ouvi-lo.
Tony
terminou de contar a história e todos ali memorizaram mais um pouco das lutas
vividas por seus antepassados. E pela história ele foi felicitado: “Que sua voz nunca vacile.”, “Que sua casa seja próspera.”, “Que sua sombra não diminua.”, “Que sua graxa nunca seque.” E coisas
correlatas.
E
assim que terminaram, outra pessoa apareceu na porta da cozinha: alto, cabelos
grisalhos e bem-penteados, olhar ávido e movimentos sutis. Margareth o
reconheceu de imediato:
— O
que Marcus faz aqui?
E ele saudou:
— Olá, família. Perdi alguma coisa?

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