Ardes - Capítulo 096

 

E assim a semana passou e chegou o Natal. Como de costume, a comemoração na casa dos Andrade prometia. Foram contratados buffet e músicos para deixar a festa mais livre aos convidados, mas houve quem quisesse levar pratos adicionais. Destaque para algumas primas de Elizabeth, como Laninha, que levou sua famosa torta de sardinha, além de Rudeuma, com seu guisado de quiabo e jiló. Parentes de Mario também levaram pratos, como a tia Condinha e sua conhecida leitoa à pururuca. E seu primo Teofídio, que levou carneiro assado ao molho de óleo e sangue. Essa foi, provavelmente, a iguaria mais elogiada daquele dia.

As mesas, dispostas no quintal da casa, deixavam um bom espaço para quem quisesse dançar, bem na frente do minipalco. Detrás do palco, uma árvore sustentava sete fios com lâmpadas brancas, que estavam presos à cerca e à varanda da casa. Em frente à varanda, colocaram o self-service e, ao lado, um pequeno bar.

O início do evento estava programado para as 17h30. Para as 20h, o amigo oculto. Porém, bem antes do horário marcado, os familiares começaram a chegar. Grupos se formavam por todos os lados, sangue que se revia. Rainen chegou com a família no horário marcado, mas não deixou de ter a atenção chamada.

— Pensei que não vinha mais — Renata o abraçou e beijou.

— Confesso que estou um pouco nervoso.

— Você os conhece, e eles a você. Não tem por que se preocupar.

— Tentarei! — Ele sorriu. — Você está linda.

Renata usava um vestido vermelho e sem mangas, que ia até os joelhos; o cabelo estava preso com uma singela fita dourada; seus acessórios também eram discretos, mas não a grande aliança prateada.

— Obrigada! — E Renata se voltou para quem acompanhava o rapaz. — Olá, senhora Letícia e senhor Onofre.

A mãe de Rainen sorriu cordialmente, mas o pai estava sério.

Em seguida, chegaram Mario e Elizabeth.

— Olá, pessoal! — cumprimentaram chamando-os. — Venham.

Ambos recepcionavam os convidados há algum tempo, mas saíram, seguindo para uma das mesas.

— Deixamos essa para nossa família — apontou Mario.

Era a maior mesa de todas, cercada por 7 cadeiras.

Renata sentou-se ao lado de Rainen, como era esperado; Letícia ao lado de Onofre, como era esperado; Elizabeth ao lado de Mario, como era esperado. O que não era esperado era que Bruna aparecesse de mãos dadas com um homem. Ela trajava um vestido tubinho azul-escuro; no pescoço, uma bela e reluzente gargantilha; os cabelos presos em um coque acrescentavam um ar de ousadia à garota. O homem vestia um traje sport fino, também azul-escuro, com uma camisa rosa clara.

— Boa noite a todos. — E ela sorriu vibrante. — Gostaria de apresentar meu namorado, Marcus.

Foi uma surpresa tamanha, que seus pais levaram um tempo para se levantar e cumprimentá-lo.

— Seja bem-vindo! — E o saudou: — Sou Mario Andrade e esta é Elizabeth Andrade.

— Obrigado! Prazer conhecê-los.

— Vamos nos sentar em outra mes…

— Sentem-se aqui. Faço questão! — foi interrompida pelo pai.

Mas ele não disse isso com boa vontade, e Elizabeth percebeu que o marido se alterou, tanto que ela segurou em sua mão buscando atenuar seus sentimentos.

— Olá, eu sou Renata, irmã de Bruna.

— Ela me falou muito sobre você — mentiu, belamente, Marcus.

— Eu sou Rainen, namorado da Renata.

— Prazer — saudou Marcus, esquadrinhando o rapaz.

— Aqui estão Letícia e Onofre, pais de Rainen — disse Elizabeth.

— Olá! — cumprimentou, mas não teve boa impressão do casal.

— Olá! — responderam de volta.

A festa seguiu animada e ficou mais ainda quando Mario pegou o microfone e anunciou:

— Hora do amigo oculto!

Aplausos e urros do grupo familiar.

Ele pegou papéis com os nomes dos presentes e os lançou em um recipiente. Cada pessoa pegaria um e chamaria o sorteado ali na frente. Naquele momento, Rainen saiu para ajudar Mario.

— Já volto — disse a Renata.

E desapareceu das vistas dos presentes.

— Bom, pessoal, eu gostaria de começar a brincadeira esse ano, e eu não poderia deixar de presentear a pessoa que amo e está sempre ao meu lado em todas as situações. Quem é ela?

E a multidão respondeu gritando:

— Beth! Beth! Beth!

Pois assim era conhecida entre as famílias.

Ela se levantou sorridente e, saudando a todos, parou próximo ao marido, recebendo um beijo.

— Quero te agradecer por ter me dado moças tão exemplares, por estar ao meu lado nos bons e maus momentos e por fazer da minha vida algo que vale a pena ser vivido. — E pediu: — Rainen, pode trazer.

Um motor acelerou e lentamente o carro vermelho parou próximo às mesas.

— Eu não acredito! — E o abraçou eufórica. — Eu não acredito!

— Acredite, é seu.

Quando ela se conteve, Mario se explicou:

— Pessoal, sei que saiu da proposta da nossa brincadeira, mas eu precisava fazer isso. Ela é a mulher da minha vida. — E sob aplausos a beijou.

Quando Mario e Elizabeth, desceram do palco, Bruna percebeu a oportunidade e pediu:

— Renata, pode pegar uma bebida para o Marcus, por favor!

— É claro. — E a garota foi para o bar.

De imediato, Bruna olhou para Valter, que se ocultava numa das mesas mais ao canto. Dali ele também foi ao bar.

— Renata!

— Valter? — ela estranhou. — O que você está fazendo aqui?

Não foi pelo toque em seu braço, mas Renata sentiu um arrepio e olhou na direção do veículo presenteado à sua mãe. Era Rainen quem se aproximava, olhando fixamente para a mão que a prendia. Ele parou a pouco mais de dois metros e gritou:

— Se esqueceu da minha promessa na última vez, não é imbecil?!

Todos na festa olharam para onde veio o grito.

Mas, dessa vez, cercado por tantas pessoas e num clima familiar, Valter bateu o pé e não recuou. Rainen olhou para Renata e, pelo olhar, se entenderam: ela segurou a mão de Valter, impedindo que ele se virasse quando Rainen o socou. O primeiro murro atingiu o nariz, e o sangue desceu de imediato; o segundo foi na barriga, fazendo Valter se entortar; e o último foi no queixo, o que o lançou ao chão.

Ninguém ousou falar nada, mas uma voz se fez entre os presentes:

— É isso? É tudo o que tem a oferecer à minha irmã? Um monte de músculos e fúria propensos à violência e que podem, inclusive, fazer da Renata mais uma de suas vítimas?

Bruna se aproximou com Marcus junto a ela.

— E você, minha irmã, deveria observar e selecionar melhor o seu parceiro. Olhe para mim e mire-se no meu exemplo. Estou com Marcus, homem estudado, trabalhador e honrado, que venceu na vida graças ao esforço e persistência.

Renata olhou, mas nada falou. Só que Bruna queria mais, queria uma justificativa para todos os seus atos. Revoltosa, ela se aproximou de Rainen numa tentativa de fazê-lo sair de si.

— E quanto a você, seu comedor de graxa ignorante, também vai tentar me intimidar? Vai me bater? — provocou-o. — O que você está fazendo aqui? Esse não é lugar para uma pessoa como você. Volta para o seu buraco e arruma uma vagabunda para engravidar e encher de fi…

Sua voz cessou subitamente ao receber um tapa na cara, que foi forte o suficiente para desamarrar os seus cabelos. De imediato, sentiu o gosto salgado na boca: sangue. Então Bruna olhou para o lugar de onde veio a agressão: Renata, que se endireitava do movimento feito com força e ira. Ver Rainen sem poder agir, incendiou o seu coração, por isso ela reagiu.

Bruna estava entre a indignação e o choro, quando a irmã se aproximou e sussurrou em seu ouvido:

— Eu sou a vagabunda dele. E é a mim que ele encherá de filhos. — E se afastou, dizendo em bom som: — Guarde os seus conselhos para você, pois da minha vida cuido eu!

E todos olharam para Renata, admirados com sua atitude e suas palavras. Bruna ficou sem ação e foi amparada por Marcus, que a retirou dali.

Renata se voltou para Rainen, sabendo que ele sentiu as palavras de Bruna, segurou o seu rosto e disse, quase num sussurro:

— Olhe para mim! Olhe para mim! — E ele o fez, encontrando o olhar firme de sua amada. — Acaso não sou sua e você não é meu? Então não se abale com isso e tenha a certeza de que, agora, a única coisa que pode nos separar é a morte.

E Renata o soltou sob o olhar dos convidados, que estavam mais próximos. Rainen respirou fundo e se endireitou ficando ereto. A garota ia saindo quando ele a segurou.

— Receba o meu presente…

Do bolso de sua calça, ele pegou um embrulho que cabia na palma de sua mão. Os olhos de Renata brilharam quando ele colocou o tecido para os lados e o dourado apareceu. Ela chorava, quando ele segurou sua mão, pedindo:

— Renata, casa comigo?

Mario e Elizabeth se aproximaram juntamente com Letícia e Onofre. A garota levou um tempo, até que se refez e pediu:

— Pode repetir a pergunta?

Controlando a emoção, ele fez novamente o pedido:

— Casa comigo?

Todos olhavam para Renata, que respondeu:

— Rainen, eu aceito o seu pedido de casamento. — E abraçou-o e beijou. — Eu te amo!

— Também te amo!

As pessoas na festa se alegraram duplamente, cumprimentando e felicitando os noivos que, às 21 horas daquela quarta-feira, trocaram alianças; a festa seguiu até próximo do amanhecer.


Nenhum comentário:

GUINEFAZ (História: Delas - Amor Proibido) [2]

Como instrutora e supervisora de sucubismo, Guinefaz tinha renome no Inferno, porém ambicionava ainda mais. Por esse motivo, viu na novata, ...