— Um
café com pouco açúcar, por favor! — O sotaque de Edwin já estava mais diluído.
O
atendente, anotou o pedido e foi providenciá-lo.
Edwin
olhou para o relógio que marcava 6h47. Calculou que conseguiria chegar pouco
depois das 7 horas, já que o percurso era de, mais ou menos, 15 minutos. Isso
lhe soava bem, pois gostava de chegar com antecedência de 1 hora. Não havia um
motivo específico para isso, apenas gostava.
Recebeu o copo de papel com o líquido fumegante e deu uma bebericada, pondo-se a caminhar. Seguiu para o lado industrial da cidade, onde também ficava a estação ferroviária. O lugar foi estrategicamente selecionado pela Dezinea, empresa holandesa desenvolvedora de motores para veículos. Não que estivessem em expansão, ao contrário. Aquela era uma medida desesperada para tentar algo enquanto havia recursos disponíveis. O que aconteceu foi que, no início de suas operações, a Dezinea teve expressivos números, que estavam atrelados ao baixo valor de seus equipamentos. Com o excesso de vendas, houve uma sobrecarga na linha de produção, com a qual não contavam, e uma queda acentuada na qualidade dos produtos. A empresa conseguiu reverter, em parte, o problema da qualidade, mas não em tempo hábil, o que manchou a sua imagem. Agora restava a Edwin e aos 40 funcionários, também holandeses, descobrir uma forma de ajudar a Dezinea a reencontrar o caminho da lucratividade.
Edwin
tinha consciência de sua responsabilidade e, naquele dia, saiu da empresa com
vários pensamentos em mente. Buscaria componentes e só voltou a si quando o
carro morreu num sinaleiro próximo ao movimentado centro da cidade.
“Mais
essa, meu Deus!”
Com
o pisca-alerta ativo, tentou dar partida algumas vezes, o motor girava, mas não
permanecia em funcionamento. Desistiu na quarta tentativa e desceu do carro
para verificar o motor.
—
Droga! — xingou erguendo o capô.
Comprara
o carro há pouco tempo e não fizera uma manutenção preventiva. Olhou, olhou,
mas não identificou o problema. Quando giraria a chave novamente, uma voz lhe
avisou:
— Vai descarregar a bateria, aí será pior.
E
ele desistiu do ato, informando:
—
Apagou do nada.
—
Ah, nem precisa falar muito. Esse modelo saiu de fábrica com problemas
crônicos. Sem contar os defeitos fantasmas.
—
Fantasmas?
— É!
Sem explicação. Aparecem e somem do nada.
Ambos
riram.
—
Meu nome é Edwin.
— O
meu nome é Rainen. Bom, deixe-me pegar as ferramentas.
Ele
foi até a caminhonete, que estacionara atrás do veículo, e trouxe uma lanterna
e uma lâmpada com jacarés, para conectar à bateria. Com a iluminação extra,
vasculhou.
—
Olha, estou desconfiado que sejam as velas.
—
Como saberemos?
Rainen
pensou um pouco, até responder:
—
Tenho algumas usadas, vamos testar.
—
Tudo bem.
Ele
voltou à caminhonete e pegou as peças, em razoável estado de uso, trocou-as e
pediu:
— Dá
partida.
De
imediato, o motor ligou. Edwin era só satisfação.
—
Muito grato! Ainda bem que não era fantasma.
Rainen
limpava as mãos numa estopa enquanto explicava:
—
Essas velas vão aguentar pouco tempo. Recomendo a troca urgente. Também pude
verificar que há outras manutenções a serem feitas, como vazamentos, fiações e
parece que está acumulando borra no motor. Sinal de que não era bem cuidado.
Peça que o seu mecânico olhe essas partes.
Edwin
ficou impressionado com o traquejo do
rapaz.
—
Olha, não tenho mecânico. Você trabalha com isso? Tem como realizar essas
manutenções?
—
Trabalho numa oficina aqui perto. Como é urgente posso trocar as velas, mas
estou sem tempo para os demais reparos.
—
Por mim tudo bem, desde que o carro funcione. Preciso buscar material para
amanhã logo cedo.
—
Então sejamos rápidos! — Rainen recolheu as ferramentas e as guardou na pick-up, pedindo: — Siga-me!
Arrancou
com o veículo, e o novo cliente o seguiu. Ele estacionou o carro e estranhou a
garagem tão movimentada. De dentro, Tony saiu esbaforido:
—
Graças a Deus, você chegou.
Edwin
desceu observando o que se passava.
— O
que está acontecendo?
—
Uma ligação da Rua 23, em frente à Lanchonete do Maroto. A ambulância acabou de
enguiçar lá, com um ferido dentro. A segunda ambulância está em outra
ocorrência e não poderá vir. Pediram que você fosse até lá.
—
Como assim pediram que eu fosse…
—
Letrado — Tony o interrompeu com lágrimas nos olhos —, é o Leny. Ele está naquele
veículo e precisa chegar ao hospital.
Rainen
parou de imediato raciocinando sobre tudo à sua volta, e disparou:
—
Rápido! Me ajudem a colocar a capota de lona na caminhonete.
Tony
e Edwin o fizeram.
—
Tony, liga para o telefone que o Edwin te falar e pede que entreguem a
encomenda onde ele precisar, pois não terei como ajudá-lo agora.
— E
o que mais?
—
Liga pra minha casa e avisa que não tenho hora pra chegar — disse e foi
entrando na caminhonete.
No
banco do passageiro, embarcou Edwin:
— Eu
te ajudo!
—
Valeu, Edwin!
E o
rapaz prestou atenção quando o motor da picape foi ligado, sentindo a potência
e a maciez do veículo. Mas foi só isso, pois o momento era de agitação. Rainen
acelerou e em poucos minutos chegaram até a viatura hospitalar.
—
Rainen, que bom que chegou. — Ruan, o motorista da ambulância, o conhecia desde
o colegial.
— O
que aconteceu?
— O
motor morreu e a equipe está lutando para estabilizar a vítima, mas não
conseguirão mantê-lo vivo sem os equipamentos do hospital.
—
Então…
Nesse
instante, uma viatura da polícia encostou.
—
Como podemos ajudar? — prontificou-se o policial.
—
Tem como remover o ferido? — perguntou o motorista da ambulância.
—
Não com esse carro.
—
Mas você pode nos garantir passagem — Rainen fazia cálculos mentais.
— E como faremos?
— Na verdade, temos outro motor. — Rainen olhou para a sua caminhonete. — Vou rebocar a ambulância.

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