Ardes - Capítulo 086


Como funcionário de uma área tranquila, Astor era responsável pela entrega de documentos e encomendas variadas, tanto de entrada quanto de saída. Começou nesse serviço ainda com 16 anos, quando entrou como estagiário, e, por algum motivo, permanecia nele até hoje. Mas havia um fator que talvez corroborasse isso: apenas ele, em toda a organização, manuseava a documentação sigilosa. Esses papéis saíam das mãos de Marcus e eram entregues nas mãos de grandes empresários ou chefes no setor público. Tinham grande importância, e o poder de mudar a destinação de milhões ou bilhões de dólares.

Então, de duas a três vezes por semana, Astor ficava exclusivamente voltado para isso. Mas fazia com tamanha discrição que poucos ali sabiam dessa parte de suas atribuições. Para isso, dizia: “Vou ao banco”. Ou então: “Preciso sair mais cedo hoje”. E, às vezes: “Pediram para eu buscar uma encomenda”. Fato é que era muito discreto.

Era fim de tarde e ele retornava para a sua sala, após a entrega de um desses envelopes para Marcus, quando o seu ramal tocou.

— Oi!

— Olá. — Ele se endireitou na cadeira.

— Preciso falar com você.

— Tudo bem. Sobre o quê?

— Sobre o que aconteceu no elevador hoje cedo.

Astor sentiu um incômodo com a pauta da conversa.

— O que quer saber?

— Por que agiu daquela forma?

— Ficou preocupada com isso? — tentou atenuar o assunto.

— Passei o dia todo com aquilo na cabeça, e a única coisa que me ocorreu é que você teve alguma coisa com aquela moça.

Ele ficou calado, sem encontrar as palavras.

— Você teve?

No instante, um colega entrou pedindo:

— Astor, preciso sair, mas tem uma correspondência para o sexto andar. Quebra esse galho pra mim?

— Tudo bem! — Responderia a Margareth, mas ela desligou. — Droga!

Era fim de expediente, com poucos funcionários, mas o interessado naquela entrega ainda a aguardava. Astor pegou a assinatura e retornou para a sala, a última do setor. Quando chegou à sua sala, Viu Margareth sentada em sua cadeira, ela disparou:

— Teve ou não teve?

O rapaz até se assustou com a presença inesperada.

— Não tive nada com ela, mas eu tentei conhecê-la.

— Tem certeza?

Ele sentiu que não conseguiria se manter na relação se não fosse completamente sincero.

— Olha, eu até tentei me aproximar dela, mas não deu cer…

— Como? — a voz da garota estava um pouco alterada.

— Lembra dos ingressos para o show do Biga Liga? Eu comprei para levar ela.

A revelação fez Margareth ficar muda por alguns instantes, até que questionou:

— Se os ingressos eram para ela, então eu fui a sua segunda opção?

— Claro que não… eu nem te considerava como opção.

— Como é que é? — dessa vez, ela gritou.

Sentindo a delicadeza da situação, Astor sentou-se na cadeira em frente à mesa, em vez de se aproximar.

— Contigo aconteceu tudo ao acaso: o convite, o encontro, as descobertas, o sexo.

— Estou me sentindo mal com tudo isso. — Ela caminhou até a porta, se preparando para ir embora, e parou bruscamente. — Me dá um motivo para que eu não termine tudo entre a gente agora mesmo.

Astor sentia a gravidade da situação, mas apelou para a sinceridade mais uma vez:

— Você e eu nos gostamos.

Margareth emudeceu, sentindo que a verdade daquelas palavras encontrava e movimentava as essências de seu coração. Aquilo fragmentou o seu ímpeto e ela fechou a porta, se voltando para ele. Astor se aproximou, ela o encarava com os olhos marejados.

— Como pode ter certeza disso?

Ele estendeu a mão e afagou-lhe as bochechas.

— Porque estamos aqui, após o expediente de serviço, discutindo a nossa relação.

Ela segurou sua mão e o puxou para si.

— Não está brincando com meus sentimentos, está?

— É claro que não… — E se beijaram profunda e demoradamente. Quando pararam, ele complementou: — Só quero o seu amor.

Astor se sentia seguro com o que dizia e Margareth com o que ouvia.

— E por que ficou daquele jeito ao vê-la?

— Acho que um desconforto pelo passado recente e por ter as duas no elevador.

— Não fique assim e também não abaixe a sua cabeça para o que passou. Isso ficou para trás.

Ele entendeu o momento de apoio.

— Obrigado por me compreender.

— Quando faço por você, sou eu mesma que colho os frutos.

Abraçaram-se e ficaram por ali mais um tempo, compartilhando as energias positivas que emanavam um do outro.

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