Ardes - Capítulo 118
Valéria se sentia satisfeita, pois, aos poucos, executava o plano arquitetado por Bruna, e entendia que, assim, estreitaria os laços daquela amizade. Por outro lado, havia uma ponta de arrependimento, pelo fato de achar o rapaz tão correto e compromissado.
“É
difícil encontrar alguém assim nos dias de hoje.”
E
por isso, vez ou outra, repassava as conversas com a amiga, que, para Valéria,
destoavam um pouco da realidade.
Já ele foi obrigado a mudar, não muito, mas
mudou. Hábitos e costumes até que foram fáceis de alterar, porém o horário foi
mais difícil. A relação oculta exigia isso. E se quisesse mantê-la, faria
assim. Tudo isso ele considerava consigo
“Ela vale o sacrifício, sim”.
A
garota chegou em sua vida de forma arrebatadora, como um bilhete premiado, por
isso ele se sentia afortunado, e não cansava de relembrar daquele dia:
Aquela sexta-feira prometia. Dirigia o
carro com cuidado e um zelo que chamava a atenção, mas, pisando os pedais,
sentia a fera oculta sob o capô. Assim que parou no semáforo, um carro vermelho
e conversível, emparelhou ao seu lado. Aquilo foi suficiente para deixa-lo
impressionado. Era um conversível reluzente e luxuoso, que ele só vira em
revistas. Mas o que extrapolou os seus limites foi a motorista: mulher nova,
bela e transbordando sensualidade.
Naquele instante, ela tentou ajustar o
retrovisor do carro, mas não conseguiu.
— Ei, moço! Pode me ajudar aqui? — pediu
a garota.
Era demais para qualquer um, e também
foi para ele. Solícito, ele ligou o pisca-alerta e sinalizou para que ela
estacionasse na frente da caminhonete. Desceu e foi até ela. O ar lhe fugiu
quando a garota desembarcou e ficou de pé: minissaia, exibindo as pernas belas
e torneadas; miniblusa, deixando a barriga e parte dos seios à mostra;
perfumada, seduzindo pelo cheiro.
— Qual é o problema? — a pergunta saiu
meio vaga.
Ela encurvou o corpo empinando o quadril
e apontou para o retrovisor.
— O espelhinho não está na posição
certa. — Fez um biquinho para complementar.
Trêmulo, ele se sentou no banco do
passageiro, tentando ao máximo se concentrar no que fazia, mas aquelas coxas e
virilha tão próximas do seu rosto tiravam-lhe a atenção. Demorou até entender
como funcionava a alavanca que movimentava os espelhos:
— Ah, descobri! — E fez os alinhamentos.
— É que é a mesma peça para todos os espelhos.
— Eu nunca descobriria. — E lhe sorriu.
— Que belo carro esse seu!
— Verdade. Aquela caminhonete é sua?
O rapaz se concentrou, até responder:
— É!… É, sim!
— Bonita também. Parece robusta, forte.
— E é mesmo.
— Bom, eu preciso ir. Como faço para te
encontrar? Os espelhos podem se desregular.
— Anota o meu telefone. — E ele se
desculpou: — É que, na pressa, esqueci de trazer cartões.
— Já anotei, mas guarda o meu. — E da
bolsa de mão retirou um e lhe entregou.
O perfume foi envolvente, nunca se
esqueceu dele.
Claro
que às vezes se sentia intimidado com tamanha beleza e sensualidade da moça. E
se perguntava se era sonho ou realidade.
—
Está tudo bem, gato? — ela perguntava quando o via pensativo assim.
—
Claro! Claro! Sem problemas. — E, após um selinho, perguntou: — E os estudos
como andam?
—
Ah… Mais ou menos. Não me importo tanto.
—
Por que não?
—
Minha família tem muito dinheiro, então… só não me preocupo.
Ele
ficou pensativo com a resposta dada pela garota.
—
Bem, uma hora você terá que ganhar e administrar o seu próprio dinheiro. Como
fará?
—
Confesso que não penso nisso.
—
Você é linda, mas precisa do conhecimento para ficar mais interessante.
— Me
acha linda? — Ela riu.
—
Tem dúvida disso? — O rapaz riu também e se levantou. — Está na minha hora.
—
Quando estou com você, o tempo passa tão rápido… — A garota o abraçou. — Não
pode ficar mais?
—
Não dá. Tenho carros para fazer manutenção e à noite terei outros compromissos.
Valéria
entendia que o termo outros compromissos
se tratava de Renata, e que ele falava assim para disfarçar. Como fazia parte
de seu plano, ela não questionava tanto.
— Tudo bem. Então depois nos encontramos novamente.
E tudo se mantinha bem informal entre os dois.



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